terça-feira, 10 de abril de 2018

verso dialético

tudo que é sólido
se desmancha no ar
a sede
a angústia
e a vontade
de te amar

06.10.2016

Por: Antonio Lima Júnior

domingo, 1 de abril de 2018

mais um poema urbano e cansado

tem dias
que me acordo
pensando:
"vou morrer
num apartamento
sozinho
e encontrarão
meu corpo
dois dias depois
apodrecendo
com o disco
do Sinatra
tocando my way
repetidas vezes
my way
my way"

saio de casa
meus olhos se contraem
com a luz do sol
minhas pernas tremem
de ansiedade
com os próximos passos

essas coisas
costumam acontecer
nos domingos
quando até os ônibus
demoram demais

10.01.2016

Por: Antonio Lima Júnior

terça-feira, 27 de março de 2018

balzaquiana

Amo uma mulher
balzaquiana
que apresenta
um amor maduro
que não me engana
e traz consigo
aquilo que é puro

a realidade concreta
das dificuldades de amar
sem ilusões perdidas
verdadeiramente correta
que não se desmancha
no ar

em tempos de fluidez
tens a dureza da vida
uma relação marcada
de completa sensatez
como deve ser
a nossa querida
rotina ingrata

27.03.2018

Por: Antonio Lima Júnior

domingo, 18 de março de 2018

um poeta decadente

um poeta decadente
tem sua temporada no inferno
visto um calção
e mergulho de cabeça
nas labaredas que consomem
minhas noites de angústia

faço um protesto
e antes que meus demônios
entrem em greve
estou novamente
rabiscando palavras
em um papel qualquer
que você só vai entender
no meu obituário

06.02.2018

Por: Antonio Lima Júnior

sábado, 10 de março de 2018

amanhece em Fortaleza

amanhece em Fortaleza
e as calçadas do Benfica
ainda estão sujas de sangue
apesar de lavadas
pela chuva do luto
a madrugada inteira

corpos atravessados pelos cantos
e o silêncio estampado
nos rostos dos que sobreviveram
à mais uma chacina alencarina

e eles dizem que está tudo sob controle
enquanto nossos irmãos padecem
no cotidiano da barbárie
de um sistema que só nos oferece medo
armamento e cerca elétrica

quantos mais morrerão
quantos portões de alumínino serão construídos
quantas sociabilidades destruídas
até que a máscara do medo caia
amarrada ao fino cordão do capital?

10.03.2018

Por: Antonio Lima Júnior

quinta-feira, 1 de março de 2018

Rasura

Tal qual minha rotina
meus poemas já perderam
o pequeno brilho que aparentava
crescer algum dia

já não são pungentes
apenas rabiscos mecânicos
e imediatos
que passam pela folha de papel
como eu passo ao andar pelas ruas
da cidade
sem fazer alarde
sem conhecimento
apenas marcando presença
e respirando o ar puro
que um dia deixarei de sentir
em meus pulmões que fraquejam
ao primeiro sinal
de que o lápis está se acabando
e ainda não terminei de escrever
aquilo que eu realmente sinto
e que deveria escrever
verdadeiramente

05.02.2018

Por: Antonio Lima Júnior

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

romances moleculares

meu coração em tempos
de amores tão molhados
quando gasoso atira
para todos os lados

e a dispersão torna
em estado de solidez
esquece tudo e vem
a solidão outra vez

trocando de estado
em qualquer estação
assim perco o rumo
do meu difuso coração

19.12.2017

Por: Antonio Lima Júnior

segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

repeat

Hoje eu acordei
com vontade de ouvir
aquele disco que ouvíamos juntos
na hora de transar

lançado na semana
em que fizemos amor pela primeira vez
falava da nossa vida
até a música final

nem tudo na vida
podemos dar repeat

12.09.2017

Por: Antonio Lima Júnior

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Romaria de Nossa Senhora das Dores

Um coração
de madeira
cravado
na praça Padre Cícero
com dois nomes
de uma relação tão forte
quanto a imburana
talhada
pelo artesão

faça sua tatuagem
de hena
e ponha o nome
do seu amor
até que a tinta seque
e a paixão dissipe
na próxima
romaria

16.09.2015

segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

galáxia perdida

quando olho para a história da humanidade
vejo que já escreveram o que eu queria escrever
e que já fizeram tudo o que eu queria fazer
estou preso nesta época
como um mero observador
sem compreender meus contemporâneos

viajante do tempo
vagando na imensidão do século 21
sem saber o que fazer
acho que estou na época errada
perdi os prazos
a porta fechou
ou simplesmente esse é o meu destino
vagar pelo espaço e tempo
em busca de um sentido
até mesmo para o que escrevo

13.10.2017

Por: Antonio Lima Júnior