quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Anjo Solitário

Este anjo solitário
anda pelas ruas da cidade
com as asas rebaixadas
ao ponto de esquecer
o real tamanho delas

às vezes acha que é demônio
por não andar entre seus pares
e preferir a solidão mundana
das vielas barulhentas
ao invés do pacato e silencioso
reinado celeste dos outros anjos

quem sabe um dia
de tanto diminuir-lhe as asas
elas desapareçam
fazendo assim enfim
virar um ser humano

até lá continuará solitário
sem saber se é anjo
demônio ou homem

27.08.2017

Por: Antonio Lima Júnior

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

o homem sem face

o homem sem face
anda pelas ruas sozinho
ninguém sabe o que ele pensa
não sorri
não sabe se está triste

não pergunta onde fica a rua tal
ele apenas anda com as mãos no bolso
sem saber o que os outros pensam de si

busca apenas o caminho certo
para encontrar aquilo que procura
o cenário é mero figurante
o buraco no asfalto
uma loja fechada
é tudo tão indiferente
quanto o seu rosto

06.10.2017

Por: Antonio Lima Júnior

domingo, 24 de setembro de 2017

Maquinando

Forço um poema
com versos que nada dizem
sobre o que sinto
no puro ato mecânico
de escrever

para conter os demônios
que circundam o meu quarto
trazendo consigo
as muriçocas
o calor
e um desejo inerente
de fazer aquilo que nunca tive coragem

eis que a poesia
torna-se mais que uma arte
és agora de mim
uma longa e triste parte

08.09.2017

Por: Antonio Lima Júnior

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

sumido

Às vezes
você sente a necessidade
de sumir
e deixar que as pessoas
um dia
se perguntem
"cadê fulaninho?"
já foi
pra nunca mais voltar
ou então, quem sabe,
cinquenta anos depois
voltar
e deixar que perguntem
"onde você foi?"
e responder
serenamente:
"fui só comprar cigarros
na budega.
Sentiu minha falta?"

22.06.2013

Por: Antonio Lima Júnior

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

intermitências da vida

no meio de tantos afazeres
passo no centro
encontro um homem
vendendo livros na calçada
compro um de contos
por cinco conto

passo no cinema
vejo um filme contigo
na sessão especial
promoção de seis reais
te levo pra uma exposição
e me apaixono por ti
entre xilogravuras e cordéis

volto pra casa
e revejo os problemas cotidianos
da vida
desejando outro dia como hoje
assim repentino
como o abraço que tu me deu
enquanto subia no ônibus

07.12.2016

Por: Antonio Lima Júnior

domingo, 13 de agosto de 2017

Gastura

Sobe em meu peito
uma gastura
não tenho vontade de comer
nem sequer de pensar
deito na cama
sem vontade de dormir
apenas existo
respirando
com auxílio de aparelhos imaginários
até que a ânsia acabe
e volte a deglutir
as coisas da vida

13.08.2017

Por: Antonio Lima Júnior

domingo, 6 de agosto de 2017

Les temps de jambo

É tempo de primavera
as flores do jambo
caem pela calçada
formando um caminho róseo
até o teu coração florido

lembro dos tempos de infância
em que haviam jambos pela vizinhança
e hoje apenas muros e portões cinzentos
reinam no antes florido bairro
que agora só tem nos filtros do instagram
o mais próximo do outrora mundo colorido

28.07.2017

Por: Antonio Lima Júnior

quinta-feira, 27 de julho de 2017

Operário da palavra

Operário da palavra
vendo minha força de trabalho
para os magnatas
do monopólio
que cortam minhas palavras de denúncia
por anúncios das empresas que eles também administram

Meu inimigo de classe
me chama de colaborador
e se eu fizer greve
mandam os estagiários
duplamente explorados
rendidos ao fascínio
do prestígio que criaram
em ser proletário midiático

Mas quando expropriarmos
aquilo que nos é de direito
as redações
os parques gráficos
faremos um novo jornalismo
com a cara e a fala
do proletariado
nosso irmão de classe
tão duramente fuzilado
por nossas canetas vermelhas de sangue do povo

02.05.2017

Por: Antonio Lima Júnior

sexta-feira, 21 de julho de 2017

Eu vi uma mosca bebendo

Eu vi uma mosca bebendo
uma gota de cerveja
na mesa em que eu estava
num bar de Juazeiro

Ela voou cambaleante
em círculos
até bater em meus óculos
e minha vista escurecer com a sobriedade do cotidiano

14.07.2017

Por: Antonio Lima Júnior

quarta-feira, 5 de julho de 2017

Versos amorosos

Teu beijo em minha testa
Deixou teu perfume em mim
Meu coração já em festa
Bate como um tamborim

Há muito te quero comigo
Para nas noites te beijar
Fazer dos teus braços abrigo
Amores na luz do luar

Gravar teu nome em meu peito
Com tuas unhas exalando paixão
Em nosso altar o meu leito

Com juras de amor permanente
Cravando de vez a paixão
Em teus lábios de sabor aguardente

02.07.2017

Por: Antonio Lima Júnior